terça-feira, 2 de junho de 2009

ESCOLA POPULAR REVOLUCIONARIA (OBJETIVOS E METAS)

ESCOLA POPULAR REVOLUCIONARIA.

Objetivos gerais.
A educação institucionalizada, especialmente nos últimos 150 anos, serviu –no seu todo- ao propósito de não só fornece os conhecimentos e o pessoal necessário a maquina produtiva em expansão do sistema do capital, como também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes, como se não pudesse haver nenhuma alternativa à gestão da sociedade, seja na forma “internalizada” (isto é, pelos indivíduos devidamente “educados” e aceitos) ou através de uma dominação estrutural e uma subordinação hierárquica e implacavelmente imposta. A própria historia teve de ser totalmente adulterada, e de fato freqüente e grosseiramente falsificada para esse propósito. Fidel castro, falando sobre a falsificação da historia cubana após a guerra de independência em relação ao colonialismo espanhol, fornece um exemplo impressionante:
“o que nos disseram na escola? O que nos diziam aqueles inescrupulosos livros de historia acerca dos fatos? Diziam-nos que a potencia imperialista não era a potencia imperialista, mais sim que, cheio de generosidade, o governo dos Estados Unidos, ansioso por nos dar a liberdade, interveio naquela guerra e que, como conseqüência disso, éramos livres. Porem, Mao éramos livres em virtude das centenas de milhares de cubanos que morreram durante os trinta anos de combate; não éramos livres pelo gesto de Carlos Manuel Céspedes, o Pai da Pátria, que iniciou aquela luta e que, ademais, preferiu ter seu filho fuzilado a fazer sequer uma concessão; não éramos livres pelo esforço heróico de Máximos Gomes, Calixto García e tampouco por aqueles próceres ilustres; não éramos livres pelo sangue derramado das vintes e tantas feridas de Antonio Maceo e sua queda heróica em Puta Brava; éramos livres simplesmente porque Theodor Roosevelt desembarcou alguns rangers em Santiago de Cuba para combater um exercito esgotado e praticamente vencido, ou porque os encouraçados norte-americanos afundaram as “latas-velhas” de Certeza em frente à baia de Santiago de Cuba. E essas monstruosas mentiras, essas incríveis falsificações eram as que se ensinavam em nossas escolas.”
As deturpações desse tipo são regras quando há riscos realmente elevados, e assim é, particularmente, quando eles são diretamente concernentes à racionalização e à legitimação da ordem social estabelecidas como uma “ordem natural” supostamente inalterável. A historia deve então ser reescrita e propagandeada de uma forma ainda mais distorcida, não só nos órgãos que em larga escala formão a opinião política, desde os jornais de grande tiragem às emissoras de radio e de televisão, mas até nas supostamente objetivas teorias acadêmicas. Marx oferece uma caracterização devastadora de como uma questão vital da historia do capitalismo, conhecida como a acumulação primitiva ou original do capital, é tratada pela ciência da economia política. Num vigoroso capitulo de O Capital, escreve ele:
“essa acumulação desempenha na economia política um papel análogo ao pecado original na teologia. Adão mordeu a maça e, com isso, o pecado sobreveio à humanidade. Explica-se sua origem contando-se como anedota ocorrida no passado. Em tempos muitos remotos, havia, por um lado, uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo parcimoniosa,e, por outro, vagabundos dissipando tudo o que tinham e mais nada. A lenda do pecado original teológico conta-nos, contudo, como o homem foi condenado a comer seu pão com suor de seu rosto; a história do pecado original econômico, no entanto, nos revela por que há gente que não tem necessidade disso. Tanto faz. Assim se explica que os primeiros acumularam riquezas, e os últimos, finalmente, nada tinham para vender senão s sua própria pele. E desse pecado original data a pobreza da grande massa que até agora, apesar de todo o seu trabalho, nada possui para vender senão a si mesma, e a riqueza dos poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenham parado de trabalhar. Tais trivialidades infantis o Sr. Thiers, por exemplo, serve ainda, com a solene seriedade de um homem de Estado, em defesa da proprieté, aos franceses, outrora são espirituosos [...] Na historia real, como se sabe, a conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência, desempenham o papel principal. Na suave economia política reinou desde sempre o idílio. [...] Na realidade, os métodos da acumulação primitiva são tudo, menos idílicos. [...] os expulsos pela dissolução dos séquitos feudais e pela intermitente e violenta expropriação da base fundiária, esse proletariado livre como os pássaros não podia ser absorvidos pela manufaturas nascentes com a mesma velocidade com que foi posto no mundo. Por outro lado, os que foram bruscamente arrancados de seu modo costumeiros de vida não conseguiram enquadrar-se de maneira igualmente súbita na disciplina da nova condição. Eles se converteram em massa de esmoleiros, assaltantes, vagabundos, em parte por Predisposição e na maioria dos casos por força das circunstâncias. Daí ter surgido em toda a Europa ocidental, no final do século XV e durante todo o século XVI, uma legislação sanguinária contra a vagabundagem. Os ancestrais da atual classe trabalhadora foram imediatamente punidos pela transformação , que lhes foi imposta, em vagabundos paupers. A legislação os tratava como criminosos “voluntários” e supunham que dependia de sua boa vontade seguir trabalhando nas antigas condições que não existiam. [...] Desses pobres fugitivos, dos quais Thomas Morus diz que os coagiam a roubar, “foram executados 72 mil pequenos e grandes ladrões, sob o reinado de Henrique VIII”.
Naturalmente, nem mesmo os altamente respeitáveis pensadores da classe dominante podiam adotar uma atitude que divergisse do modo cruel de subjugar aqueles que deviam ser mantidos sob o mais estrito controle, no interesse da ordem estabelecida. Não até que a própria mudança das condições de produção modificasse a necessidade de uma força de trabalho –grandemente ampliada- sob as condições expansionistas da revolução industrial.
Aqui a questão crucial, sob o domínio do capital, é assegurar que cada individuo adote como suas próprias as metas de reprodução objetivamente possíveis do sistema. Em outras palavras, no sentido verdadeiramente amplo do termo educação, trata-se de uma questão de “internalização” pelos indivíduos da legitimação da posição que lhes foi atribuídas na hierarquia social, juntamente com suas expectativas estipuladas nesses terrenos. Enquanto a internalização conseguir fazer o seu bom trabalho, assegurando os parâmetros reprodutivos gerais do sistema do capital, a brutalidade e a violência podem ser relegadas a um segundo plano (embora de modo nenhum sejam permanentemente abandonadas) posto que são modalidades dispendiosas de imposição de valores, como de fato aconteceu no decurso do desenvolvimento do capitalismo moderno. Apenas em períodos de crise aguda volta a prevalecer o arsenal de brutalidade e violência, com o objetivo de impor valores, como o demonstraram em tempos recentes as tragédias dos muitos milhares de desaparecidos no Chile, Brasil e Argentina.
As instituições formais de educação certamente são uma parte importante do sistema global de internalizaçao. Mas apenas uma parte. Quer os indivíduos participem ou não –por mais ou menos tempo, mas sempre em um numero de anos bastante limitado- das instituições formais de educação, eles devem ser induzidos a uma aceitação ativa (ou mais ou menos resignada) dos princípios reprodutivos orientadores dominantes na própria sociedade, adequados a sua posição na ordem social e de acordo com as tarefas reprodutivas que lhes foram atribuídas. Sob as condições de escravidão ou servidão feudal isto é, naturalmente, um problema bastante diferente daquele que deve vigorar no capitalismo, mesmo que os trabalhadores não sejam (ou sejam muito pouco) educados formalmente. Todavia, ao internalizar as onipresentes pressões externas, eles devem adotar as perspectivas globais da sociedade mercantilista como inquestionáveis limites individuais a suas aspirações pessoais. Apenas a mais consciente das ações coletivas poderá livrá-los dessa grave e paralisante situação.
Uma concepção oposta e efetivamente articulada uma educação que transcenda o capital não pode ser confinada a um limitado números de anos na vida dos indivíduos mas, devido a suas funções radicalmente mudadas, abarca-os a todos. A “auto-educação de iguais” e a “autogestão da ordem social reprodutivas” não podem ser separados uma da outra. A autogestão –pelos “produtores livremente associados”- das funções vitais do processo metabólico social é um empreendimento progressivo – e inevitavelmente em mudança. O mesmo vale para as pratica educacionais que habilitem o individuo a realizar essas funções na medida em que sejam redefinidas por eles próprios, de acordo com requisitos em mudanças dos quais eles são agentes ativos. A educação neste sentido, é verdadeiramente uma educação continuada. Não pode ser “vocacional” (o que em nossa sociedade significa o confinamento das pessoas envolvidas a funções utilitarista estreitamente predeterminadas, privadas de qualquer poder decisórios), tampouco “geral” (que deve ensinar aos indivíduos, de forma paternalista, as “habilidades do pensamento”). Essas noções são arrogantes presunções de uma concepção baseada numa totalmente insustentável separação das dimensões praticas e estratégicas. Portanto, a “educação continuada”, como constituinte necessário dos princípios reguladores de uma sociedade que transcenda o capital, é inseparável da pratica significativa da autogestão. Ela é parte integral desta ultima, como representação no inicio da fase de formação na vida dos indivíduos, e, por outro lado, no sentido de permitir um efeito feedback dos indivíduos educacionalmente enriquecidos, com suas necessidades mudadas corretamente e redefinidas de modo equitativos, para a determinação global dos princípios orientadores e objetivos da sociedade.
A nossa época de crise estrutural do capital é também uma época histórica de transição de uma ordem social existente para outra, qualitativamente diferente. Essas são as duas características fundamentais que definem o espaço histórico e social dentro do qual os grandes desafios para romper a lógica do capital, e ao mesmo tempo também para elaborar planos estratégicos para uma educação que vá alem do capital, devem se juntar. Portanto,a tarefa da escola popular revolucionaria é, simultaneamente, a tarefa de uma transformação social, ampla e emancipadora. Nenhuma das duas pode ser posta à frente da outra. Elas são inseparáveis. A transformação social emancipadora radical requerida é inconcebível sem uma concreta e ativa contribuição da educação no seu sentido amplo. E vice-versa: a educação não pode funcionar suspensa no ar. Ela pode e deve ser articulada adequadamente e redefinida constantemente no seu sentido inter-relacionamento dialético com as condições cambiantes e as necessidades da transformação social emancipadora e progressiva em curso. Ou ambas tem êxito e se sustentam, ou fracassam juntas. Cabem a nós todos –todos, porque sabemos muito bem que “os educadores também tem de ser educados”- mente-las de pé, é não deixá-las cair. As apostas são elevadas demais para ser admita a hipótese de fracasso.
Nestes empreendimentos, as tarefas imediatas e as suas estruturas estratégicas globais não podem ser separadas ou opostas umas às outras. O êxito estratégico é impensável sem a realização das tarefas imediatas. Na verdade, a própria estrutura estratégica é a síntese global de inúmeras tarefas imediatas, sempre renovadas e expandidas, e desafios. Mas a solução destes só é possível se a abordagem do imediato for orientada pela sintetização da estrutura estratégica. Os passos mediadores em direção ao futuro – no sentido da única forma viável de automediaçao- só podem começar no imediato, mas iluminado pelo espaço que ela pode, legitimamente, ocupar dentro da estratégia global orientada pelo futuro que se vislumbra.





Objetivos específicos.
A escola popular não tem como objetivo formar o sujeito para o mercado de trabalho capitalista. Visto que esta educação é um instrumento mecanicista que não leva a formação do individuo como um ser social e político.
Os principais objetivos é desenvolver uma consciência de classes.
Contribuir com um processo revolucionário através de uma nova educação popular que não esteja vinculada aos interesses do capital.
Fazer propaganda da lutas revolucionaria do Brasil e do Mundo, visto que a escola popular é um espaço para discussão, debate e aprendizagem.
Romper com as bases da educação formal.

Metodologia.
Divulgar as atividades através dos meios virtuais.
Expandir as atividades para outros colégios e outros espaços.
Realizar atividades semanalmente.
Fazer jornais semestralmente.

Avaliação.
As avaliações serão feitas conforme as necessidades.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O crash financeiro global destrói a “segurança social privada”

Por todo o lado se especula sobre as consequências do incêndio devastador do capital financeiro, classificado como “histórico” mesmo pelo otimismo profissional oficial. Ora elas estão à vista. Não se pode falar de crise “histórica” e simultaneamente proceder como se o drama se desenrolasse sobretudo no céu financeiro alegadamente impenetrável, sem repercussões decisivas sobre toda a sociedade. O crédito, segundo Marx, não é senão antecipação de mais-valia futura, antecipação à qual tem de se seguir a correspondente valorização real do capital. Na terceira revolução industrial, desde os anos 80, esta ligação rompeu-se, porque os novos potenciais de racionalização derreteram a substância da produção de capital que é o trabalho. O desacoplamento da superstrutura financeira daí decorrente levou a uma acumulação insubstancial de “capital fictício”, mas não só. Montanhas de dívidas globais, bolhas financeiras e excesso de oferta de moeda dos bancos centrais tornaram-se para toda uma época a carga propulsora secundária da economia real e desde os anos 90 têm alimentado as conjunturas de deficit.

Para manter em curso o pré-financiamento do investimento, da produção e do consumo de mercadorias, tornados improdutivos segundo os critérios capitalistas, os mercados financeiros tiveram de ser desregulados até ao excesso. O reverso disso foi o desemprego em massa, o sub-emprego, a precarização e o empobrecimento. O facto de o crescimento “financeiramente induzido” se ter transformado numa organização de minoria põe em evidência o seu carácter fictício. O Estado transformou-se numa administração de crises anti-social. Em vez de se reconhecer os limites da valorização que aí se revelam, acreditou-se que o capitalismo estava florescente e a caminho de uma “normalidade” que nunca existiu. A chamada revolução neoliberal não foi nenhuma intervenção externa, mas sim a ratificação político-social da economia das bolhas financeiras. Daí que ela caminhou de par com a desregulação e o desmonte social, mas não só. Todos os domínios da vida se tornaram dependentes do capital virtual inflado. A onda de privatizações de serviços públicos e de infra-estruturas servia este objectivo, tal como a crescente individualização da segurança social, não em último lugar na figura de seguros de reforma privados “com suporte num capital”. Também na cultura foram cortados globalmente os apoios públicos e os seus responsáveis obrigados a andarem à cata do “sponsoring”, sobretudo junto das indústrias financeiras supostamente inesgotáveis.

O neoliberalismo não foi uma política imposta apenas “de cima”, mas em muitos aspectos foi também assumido “em baixo”, pois tratava-se de uma mudança histórica da interiorização das condições de vida capitalistas. O processo de individualização, descrito ainda com optimismo nos anos 80 por Ulrich Beck, há muito que atingiu a consciência das massas. É claro que no caso tratava-se, naturalmente, não do reconhecimento da individualidade humana, mas da auto-entrega incondicional às famigeradas forças de mercado, na forma de um sistema financeiro estruturalmente autonomizado. As fórmulas da “Eu, S. A.” [“Sociedade Unipessoal”] e da “auto-empresarialização da própria força de trabalho” surgiram numa vida quotidiana dessolidarizada. Apesar de todas as críticas, também largos sectores da esquerda procuraram adaptar-se a este estado de coisas. Os discursos sindicais eram de quem estava com ideias de os assalariados participarem no suporte das bolhas financeiras. E para a multitude de Antonio Negri teria de ser válido o paradigma da autovalorização (“autovalorisazzione”) organizada. Toda a ideologia pós-moderna da virtualidade só pôde divulgar-se tendo como pano de fundo a economia das bolhas financeiras e a individualização abstracta. Estar lá era tudo.

Agora o castelo de cartas global do crescimento “financeiramente induzido” desmorona-se perante os nossos olhos. A repercussão sobre a conjuntura mundial, tendo presente a dependência do capital monetário insubstancial edificada ao longo de décadas, não pode ser tão moderada como ainda se espera. Nos centros financeiros já se desfazem os sponsorings na cultura, tal como a prestação de serviços privados (da gastronomia aos fitness-clubs), e torna-se evidente que os sectores de baixos salários ligados a essas actividades não representam qualquer base autónoma de acumulação de capital. Nos EUA desfazem-se para milhões de pessoas os seguros de reforma individuais “com suporte num capital”. Não devessem estar em sectores de alto risco, de modo nenhum estão defendidas contra posteriores falências bancárias. O crash financeiro destrói a “segurança social privada” a todos os níveis. Esta crise é “histórica” porque devora transversalmente todos os contextos da vida. De repente, os actores caídos em estado de choque já não o querem ser e pretendem, com a busca de culpados, reduzir o problema à “cobiça” dos tubarões do investimento e localizá-lo do lado de lá do Atlântico. Este balbuciar de Merkel, Steibrück e Cª só pode servir os sentimentos anti-americanos e antisemitas. Releva de uma total incompreensão da realidade dos factos que mesmo no interior da esquerda se acredite que, com um pouco de regulação, o capitalismo poderia regressar por milagre ao estado de honrados comerciantes Buddenbrook [referência ao romance de Thommas Mann – N. Tr.]. A crise não pode ficar limitada ao sector bancário, porque tem a sua origem na falta de base real para a valorização. Das pequenas e médias empresas da construção de máquinas, por todo o lado mimadas como “criadoras de postos de trabalho”, até às pequenas empresas com a corda na garganta do sector de baixos salários ninguém se pode furtar ao fim da economia das bolhas financeiras, tal como não podem furtar-se as médias indústrias ou a “boémia digital”, para já não mencionar as finanças do Estado. Nesta situação, apostar em que o Estado se torne de novo honesto é como pôr o bode a guardar a horta. Pelo contrário, o que vai acontecer é o agravamento drástico da repressão da administração de crises.

NEY GONÇALVES.

A BOLHA FINANCEIRA IMOBILIARIA COMO ADIAMENTO DA CRISE

A queda dos mercados acionistas ocidentais, a derrocada da new economy e a daí decorrente estagnação da conjuntura mundial caracterizam há três anos o quadro do sistema mundial capitalista. Apesar de todos os truques estatísticos, de todas as reduções de trabalho e medidas repressivas, cresce cada vez mais o desemprego em massa também nos pais ocidentais. O estado social e os serviços públicos são reduzidos numa ordem de grandeza nunca até agora considerada necessária. Foi exatamente assim que se começou nas regiões presentemente em derrocada do terceiro mundo e da periferia européia (Iugoslávia). Crescem a histeria ideológica e o masoquismo social. Fazem-se esperar os grandes movimentos de oposição e uma critica do capitalismo novo e radical. O dique ainda não rompeu, mas apresenta-se com inúmeras fissuras.

A catástrofe capitalista de uma nova crise econômica mundial avança aos poucos e em etapas longas, daí que a força de erupção final será tanto mais violenta. A razão tanto para o adiamento como para a esperada violência da ruptura está no muito maior grau de interligação, penetração recíproca e interdependência econômica global em comparação com a grande crise econômica mundial dos anos vintes (1929-33), ou, seja, na relativa perda de importância das economias nacionais face ao mercado mundial, tanto no aspecto do capital financeiro como no da economia real. Daí que a economia mundial no decurso dos anos noventa não só se alimentou crescentemente de uma conjuntura de bolhas financeiras, como também se orientou cada vez mais para o centro Estados Unidos. Neste aspecto também nada se mudou com fim de new economy e o recuo ou o estouro das bolhas financeiras nos mercados de ações.

A razão para tal reside apenas em que até agora os mercados de ações caíram menos fortemente nos Estados Unidos do que no resto do mundo. Se a conjuntura dos Estados Unidos ainda não perdeu de todo a capacidade de sucção sobre a economia mundial, apesar de um considerável recuo, isso deve-se principalmente a uma explosão nos preços do imobiliário. Por outras palavras: em primeiro lugar, a bolha acionista foi substituída por uma bolha imobiliária. Na Alemanha, quota-parte da habitação própria é relativamente menor e a conjuntura econômica interna da construção civil está estagnada há muito tempo, por isso não pode ocorrer lá uma bolha financeira imobiliária. No Japão as bolhas acionistas e imobiliárias esvaziaram-se simultânea e conjuntamente nos anos 80 e estourou ao mesmo tempo no inicio dos anos 90; desde então o antigo campeão da economia mundial senta-se sobre a armadilha de uma montanha de créditos de cobrança duvidosa. Nos Estados Unidos, pelo contrario, as bolhas acionistas e imobiliárias desenvolveram-se separadamente no tempo, de tal modo que a ultima locomotiva da conjuntura mundial de certo modo obteve artificialmente um período de graça suplementar antes do seu vencimento.

O que tem a ver também com a estrutura do boom imobiliário. Enquanto a sobrecapacidade no Japão e no Sudeste asiático era constituído, sobretudo por edifícios comerciais, torres de escritórios e objetos de prestígios estatais ou semi-esatdais, que provocaram o boom imobiliário em paralelo com o boom acionista, a atual ocorrência nos Estados Unidos é condicionada pela concentração na casa própria. À parte da população que lucrou com a conjuntura da bolha acionista financiou não em ultimo lugar vivendas familiares com o credito concedido sobre os vastos ganhos de cotação no mercado acionista. Os preços ascendentes do imobiliário, a que se chegou com a procura inflacionada, fizeram do setor um compensador campo de especulação, quando os mercados acionistas se afundaram. Assim, não só houve aniquilação de valores financeiros, mas ocorreu também uma poderosa reestruturação, não em ultimo lugar através dos investidores institucionais (bancos, seguros, etc.). Daí que o boom imobiliário especulativo começou exatamente quando acabou o boom acionista; sobretudo nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra. Desde o fim da bolha acionista, os preços do imobiliário subiram cerca de 50% nos Estados Unidos e quase 25% na Inglaterra.

A conseqüência foi que os proprietários dos imóveis ganharam do mesmo maravilhoso modo no imobiliário o que perderam nas ações; tudo ou pelo menos uma parte. No decurso deste desenvolvimento, as famílias também reestruturaram o seu patrimônio. As poupanças que ainda existiam fluem já não para o mercado de ações, mas para ou fundos e outros papeis do setor imobiliário. Também os privados começam igualmente a participar nesta nova e segunda bolha financeira; não só através da aquisição dos respectivos papeis especulativo. E o produto da venda de ações, com ou sem prejuízo, vem cada vez mais para este setor. O resultado é uma dramática alteração na estrutura dos patrimônios: a quota de ações nos patrimônios privados dos Estados Unidos reduziu-se em três anos em 40%, enquanto subiu 30% a quota do setor imobiliário.

Esta alteração terá que ser alimentada também pela maravilha vontade de comprar dos consumidores dos Estados Unidos, ainda que agora mais reduzidas. Tal como antes se tinha jogado no aumento do valor das ações, que assim se podiam comprar, também agora se faz o mesmo com os títulos imobiliários. Já há algum tempo que os analistas financeiros dos bancos americanos se colocam a assustadora questão de quanto é que isso vai durar. Qualquer dia também a segunda bolha há-de rebentar e só então virá a grande derrocada. O valor realista de um imóvel deve normalmente ser calculado multiplicando a respectiva renda anual pelo fator 20. Por este critério as casas próprias dos nortes americanos estão atualmente extremamente sobrevalorizadas.

Acresce que o grosso dos inflados valores fictícios se concentra em muitos poucos financiadores imobiliários americanos, cujos títulos à maioria dos bancos acumulam grandemente nos seus livros. Parente uma ameaçadora queda dos preços do imobiliário o conjunto do sistema financeiro americano ficaria em plano inclinado, com as inerentes conseqüências para os de qualquer modo já sinistrados mercados de ações. Porem, logo que os consumidores americanos, que até agora direta ou indiretamente tem conseguido manter ou até subir o seu nível de vida graças às conjunturas das bolhas financeiras (e que serão de fato metade da população), logo que eles sejam trazidos de volta aos seus proveitos salariais “reais” há muito tempo esquecidos, então há de faltar-lhes também o fôlego para a muito elogiada vontade de comprar. Só então chegara a hora da verdade para a economia americana e daí para a economia mundial, só então o dique se romperá.

NEY GONÇALVES (TEXTO ESCRITO, 10/5/ 2008, O DIQUE SE ROMPEU).